Se existe algo com vocação para evitar atritos é a cartilagem que recobre as estruturas do nosso joelho. Cerca de cinquenta vezes menos áspera do que aquele revestimento antiaderente das panelas e cinco vezes mais lisa do que uma pedra de gelo, ela desliza como poucos. Ainda bem.

Se não fosse essa lisura toda, a movimento da perna emperraria, já que a articulação é solicitada ao menor passo. Que dirá para a gente se sentar, se agachar, chutar, dançar, fazer um esporte…

Só que, ao longo da vida, surgem situações capazes de tornar essa cartilagem mais e mais rugosa. Num dia, um machucado bobo durante o exercício. Noutro, por azar, quem sabe um rompimento de um ligamento que ajudava a estabilizar tudo aquilo. Os quilos a mais, que muitos acumulam com os anos, também pesam. A própria idade também, claro.

A aspereza torna o atrito inevitável. E ele, por sua vez, leva a um desgaste. “Chega um momento em que osso encosta com osso”, descreve o ortopedista Marco Demange, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e médico do Hospital Moriah, em São Paulo.

Diga-se que não falta osso para raspar dolorosamente um no outro. Na parte de cima, da coxa, o fêmur. Abaixo, a tíbia da perna. Na frente do próprio joelho, a patela, que no passado foi conhecida como rótula.

O roçar entre eles só piora as coisas, fazendo esses ossos formarem diversos picos. A perna pode acabar até desviando de direção. Nessa altura, estamos falando de artrose — e, se as coisas alcançaram esse ponto, que artrose!

Os casos graves exigem a troca do revestimento. O professor Demange, porém, lamenta que a cirurgia seja cogitada tão tarde. Isso porque vê no seu dia a dia pessoas que, aos 60 e poucos anos ou até antes, já não conseguem dar uma bela caminhada no parque, jogar uma partida de tênis, nadar ou pedalar um pouco mais sem reclamar dos joelhos.

“Persiste uma mentalidade antiga: só operar quando não aguentar mais”, observa. “Com isso, o indivíduo às vezes fica dois, três, cinco anos sem praticar muita atividade física, perdendo musculatura e desenvolvendo osteopenia, isto é, ficando com os ossos mais enfraquecidos “, explica. Isso comprometerá ainda mais a qualidade de vida no futuro.

O médico, no entanto, compreende. A durabilidade das próteses, no passado, era bem menor do que hoje. E o resultado às vezes deixava a desejar. Mas isso vem mudando drasticamente nos últimos anos. Ainda mais agora que surgem próteses totalmente personalizadas, moldadas para serem cópias fieis do revestimento original daquela pessoa e de ninguém mais.

Há pouco mais de seis meses, Marco Demange passou a realizar o implante dessas próteses customizadas no Moriah, sendo um dos primeiros a fazer isso no Brasil.

Como é a colocação de prótese

O procedimento para a colocação de próteses nos joelhos de certa maneira segue quase o mesmo passo a passo desde os anos 1970, quando o cirurgião ortopédico britânico John Insall, radicado nos Estados Unidos, criou a primeira delas.

Antes dele, o que era feito é praticamente desconsiderado: os cirurgiões colocavam uma espécie de dobradiça grosseira no lugar das articulações, o que os obrigava a tirar um bocado de osso. Não funcionava. Insall foi quem teve a sacada de que os joelhos só precisavam mesmo era de um revestimento novo.

Para substituí-lo, a incisão tem uns 12 centímetros. “Primeiro, é como se a gente descascasse uma laranja”, compara o professor Demange, falando da retirada da cartilagem comprometida do osso de cima, do osso de baixo e, ainda, da patela.

Na superfície limpa, além de empregar brocas, o médico espalha um cimento, parecido com aquele usado pelo dentista. Gruda, então, uma prótese lembrando a sola de um sapato no osso inferior. Uma outra é colada contornando toda a extremidade do osso de cima, como se a abraçasse.

Entre os dois ossos — o de cima e o de baixo —, o cirurgião insere um plástico de altíssima resistência, feito um pequeno colchão de polietileno. Para acabar, bem na frente, reinstala o osso da patela, o qual também recebe uma nova capa em sua face interior, lembrando uma palmilha.

Tudo não chega a durar duas horas. “E, com isso, a articulação passa a esticar e a dobrar sem os ossos rasparem uns nos outros”, garante o ortopedista.

Uma diferença da prótese totalmente personalizada é que, cerca de dois meses antes de o sujeito entrar no centro cirúrgico, é feita uma tomografia computadorizada do joelho a ser operado.

As imagens são enviadas para uma empresa americana, criada por um médico egresso da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, onde chegou a chefiar a radiologia do Brigham and Women’s Hospital. Elas servem de referência para a criação de próteses que se encaixam com precisão milimétrica nos ossos retratados pelo exame.

O encaixe faz a diferença

A inovação mereceu alarde na mídia quando, em 2019, o empresário Jorge Paulo Lemann, aos 80 anos, substituiu as articulações do joelho por essas próteses metalizadas, feitas com uma liga de titânio. Na ocasião, o “homem mais rico do Brasil”, segundo os rankings de economia, foi operado na Suíça. E, graças às peças desenhadas para ele, voltou rapidamente às quadras de tênis que são sua paixão.

“Quanto melhor o encaixe da prótese, muito melhor a qualidade do movimento. A fisioterapia ainda acaba sendo mais rápida”, nota Marco Demange. E, em matéria de encaixe, a evolução vem sendo notável.

Só que os primeiros modelos dos anos 1970 eram simplesmente arredondados, sem as curvas da anatomia humana. Sem contar que havia apenas três tamanhos — pequeno, médio e grande.

De lá para cá, a quantidade de tamanhos multiplicou — as últimas gerações, que apareceram há pouco mais de uma década, têm dez. O desenho também ficou mais parecido com o dos nossos ossos. E agora existem próteses para o joelho esquerdo e próteses para o joelho direito.

De qualquer maneira, é sempre um formato padrão. “Se a tíbia de um paciente não se encaixa exatamente na prótese, eu preciso fazer ajustes”, conta o o médico. “Posso desbastar um pouco o osso ou soltar um pouco os ligamentos até ela encaixar direito”, exemplifica.

Ele compara com um sapato: “É como se, quando o calçado está apertado, eu precisasse cortar o dedinho da pessoa para caber. Ou, ao contrário, quando está folgado, tivesse de apertar demais o laço para não sair do pé”.

Ajustes assim explicam por que até os anos 1990, 30% das pessoas operadas não achavam o resultado da cirurgia tão legal. Nelas, os joelhos não voltavam a ser como antes da artrose.

Era a mesma impressão de 15% a 20% dos pacientes operados no início dos anos 2000. Isso caiu para 5% com as próteses surgidas a partir de 2010. “E, no caso da prótese totalmente personalizada, apenas 2% sentem algo um pouco diferente, apontando um resultado abaixo da expectativa.”

Esse salto tem um preço. Nos Estados Unidos, a prótese totalmente personalizada custa 1,5 vez mais do que outra de última geração. No Brasil, é três vezes mais cara, saindo por volta de 60 mil reais.

Quando a novidade não é indicada

“Se não houvesse o obstáculo do recurso financeiro, eu só não indicaria a prótese totalmente personalizada em duas situações”, afirma o professor Demange.

Uma delas é quando o caso já está tão avançado que, olhando para a imagem, o médico nota que faltam pedaços de ossos ou que o desvio da perna, provocado pela articulação comprometida, se tornou muito grande. “Aí, eu terei de cortar ossos durante cirurgia para fazer a devida correção e não faz sentido encomendar uma prótese que evitaria justamente a necessidade desse tipo de ajuste”, justifica.

Outro motivo para não indicar a inovação é a pressa. Hoje, é preciso esperar dois meses para uma prótese totalmente personalizada aterrissar no Brasil após o envio das imagens. Ela chega junto com um kit de instrumentos cirúrgicos descartáveis, igualmente sob medida, feito com impressora 3D.

“Existem pessoas que conseguem se organizar em determinado momento da vida para ficarem mais paradas e fazerem uma operação”, relata o médico. “E elas às vezes não enxergam o benefício quando falamos de esporte, por exemplo. Dizem que não pretendem fazer escaladas, só caminhar até a padaria sem a sensação de incômodo.”

Para o ortopedista, a prótese é boa quando você consegue esquecer que os joelhos existem em qualquer situação. E, nesse sentido, os modelos personalizados são a maior garantia de alguém não se lembrar deles por muito tempo, talvez por toda a vida.

Reportagem de Lúcia Helena, colunista do UOL, para o portal Viva Bem, publicada em 09 de maio de 2023. Para verificar o conteúdo na íntegra, acesse: https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/lucia-helena/2023/05/09/artrose-no-joelho-qual-a-vantagem-de-colocar-uma-protese-personalizada.htm


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