Por que o corpo age contra si mesmo, causando doenças autoimunes?

Lúpus, diabetes tipo 1, artrite reumatoide, esclerose múltipla… Você com certeza já ouviu algum desses nomes. Nos últimos anos, diversas celebridades têm falado sobre seus problemas de saúde, jogando mais luz ao tema.

Basta pensar em Selena Gomez e toda a história da cantora com o lúpus, além de Selma Blair, que lançou um documentário sobre esclerose múltipla. Exemplos não faltam.
O que muitos talvez não saibam é que essas condições têm algo em comum: elas são consideradas doenças autoimunes. De forma resumida, isso significa que elas ocorrem pois o organismo ataca o próprio corpo, gerando danos e causando um problema de saúde.

No diabetes tipo 1, por exemplo, quem sofre a “agressão” é o pâncreas. Já no lúpus ela acontece de forma sistêmica, em diversas regiões do corpo.

Os médicos ainda não sabem exatamente o que faz com que esse corpo vire o próprio inimigo, apenas que há diversos fatores envolvidos nisso. O mais importante é a predisposição genética, além da influência do meio ambiente, hormônios e até hábitos de vida.

A seguir, VivaBem explica o que pode ser feito para restabelecer a harmonia no organismo e lidar com algumas das mais de 80 doenças autoimunes já descobertas.

Conheça algumas doenças autoimunes

Lúpus: De origem desconhecida, causa inflamação nas articulações (juntas), na pele e em outros órgãos. A pessoa apresenta sinais como sensibilidade à luz solar, manchas na pele e dores articulares.

Diabetes tipo 1: Neste caso, o sistema imunológico ataca as células beta, no pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Ter um familiar próximo com a doença aumenta o risco de desenvolver a condição.

Artrite reumatoide: Doença crônica que causa dor, inchaço e inflamação nas juntas. As articulações mais afetadas são as das mãos, dos pés e dos punhos.

Tireoidite de Hashimoto: O organismo fabrica anticorpos contra as células da tireoide. O ataque destrói a glândula ou reduz sua atividade, o que pode levar ao hipotireoidismo (produção hormonal insuficiente).

Esclerose múltipla: Doença inflamatória e progressiva, ela afeta o cérebro e a medula. Os sintomas variam e os mais comuns são problemas na visão e nos movimentos do corpo e desequilíbrio.

Vitiligo: Trata-se de um distúrbio dermatológico crônico (para a vida toda) que leva à despigmentação, ou seja, a perda da cor natural da pele.

Doença de Crohn: Problema que causa inflamação gastrointestinal e afeta principalmente o intestino delgado e o grosso. Normalmente, os primeiros sintomas são dores abdominais e diarreia.

Doença celíaca: Ocorre quando o corpo vê o glúten como ameaça e começa a atacá-lo. O intestino fica inflamado na presença dessa proteína encontrada em alimentos como trigo, cevada, centeio e aveia, e não consegue absorver os nutrientes.

Psoríase: Problema que leva ao aparecimento de placas avermelhadas (ou rosas) proeminentes, com escamas esbranquiçadas ou prateadas. Essas placas se formam a partir do crescimento anormal de células da pele.

Doença de Graves: Condição caracterizada pela produção de anticorpos que atacam a tireoide, podendo resultar no hipertireoidismo (hiperatividade da tireoide).

Por que mulheres são as mais afetadas?

• No caso do lúpus, as mulheres representam 90% dos casos. No entanto, os homens podem manifestar formas mais graves da doença.
• Aliás, nas mulheres, o lúpus é mais frequente na idade reprodutiva –assim como acontece com a artrite reumatoide.
• Um outro exemplo é a esclerose múltipla: distúrbio mais frequente em mulheres na idade reprodutiva.

Por que isso acontece?

Não há uma conclusão, mas alguns médicos explicam que existe uma relação entre o estrogênio, hormônio feminino, e o desenvolvimento de doenças autoimunes —como um estudo da Science Signaling já mostrou em 2018.

Um outro artigo do Frontiers, de 2019, apontou que as variações hormonais das mulheres aumentariam os riscos de ter a doença, entre outros fatores.
Mas, segundo Marco Antônio Araújo da Rocha Loures, reumatologista e presidente da SBR (Sociedade Brasileira de Reumatologia), essa relação do estrogênio com as doenças autoimunes é apenas uma teoria. “Não é nada categórico”, afirmou.

Principais causas das doenças autoimunes

Predisposição genética: Especialistas afirmam que as doenças autoimunes sempre possuem uma origem genética.

Fatores ambientais: Aqui entram exposição à luz solar, à poluição do ar, entre outros.

Estilo de vida: Envolvem hábitos que não são saudáveis, como sedentarismo, tabagismo e má alimentação (que leva ao excesso de peso).

Hormônios e infecções prévias: Como explicamos, doenças autoimunes podem estar relacionadas ao estrogênio. Além disso, infecções por alguns vírus (inclusive o da gripe) podem ser “gatilho” para certas doenças.

Sintomas variam muito e dependem da doença

Articulações: Dor nas pequenas articulações, como as das mãos, dos punhos e dos dedos dos pés; e inchaço, rigidez e calor nas juntas.

Pele: Lesões escuras ou avermelhadas; manchas brancas (vitiligo); e lesões que pioram com o sol.

Gastrointestinais: Diarreia frequente; mudanças no hábito intestinal; emagrecimento; e perda de apetite.

Sistema endócrino: Taquicardia; sudorese; cansaço; tremor; e emagrecimento.

Sistema nervoso central: Perda da visão (às vezes, só de um lado); visão dupla; tontura ou perda de equilíbrio; fraqueza; tremor; cansaço; e perda de sensibilidade.

Gerais: Febre; fadiga; queda de cabelo; e linfonodos aumentados.

Estresse e traumas podem ter relação com doenças autoimunes?

Estudos ainda tentam entender qual a ligação entre as duas coisas.

• Um deles, publicado no Jama, em 2018, analisou mais de 100 mil pessoas da Suécia, diagnosticadas com transtornos relacionados ao estresse, e compararam a tendência em desenvolver doenças autoimunes pelo menos um ano depois.
• No resultado, os pesquisadores concluíram que pessoas que conviviam com transtorno têm um risco maior de ter uma doença autoimune em relação ao grupo controle.
• Além disso, o estudo descobriu que essas pessoas eram mais propensas a desenvolver múltiplas doenças autoimunes –e não só uma.
• Outra pesquisa, realizada em camundongos, relacionou o trauma de infância com a esclerose múltipla. Publicado na Nature, o estudo mostrou que os animais que experimentaram estresse quando jovens eram mais propensos a desenvolver o distúrbio autoimune e menos propensos a responder a um tratamento comum.

Conclusão: o que os médicos consultados por VivaBem explicam é que a pessoa pode ter uma predisposição genética para a doença, além de outros fatores externos envolvidos (tabagismo, por exemplo), e o estresse ou trauma entrariam como um grande gatilho para a doença se desenvolver.

Diagnóstico pode ser diferente para cada doença

Lúpus: É observado o histórico clínico do paciente, além de análise de sintomas; hemograma completo; exames de anticorpos (teste de anticorpos antinucleares); exame de urina; radiografia do tórax; e biópsia renal.

Artrite reumatoide: Análise clínica dos sintomas; pesquisa de autoanticorpos (fator reumatoide e anticorpos contra peptídeos citrulinados); exames de imagem (radiografia, ultrassonografia, ressonância magnética); testes para avaliar proteínas no sangue; hemograma; e sorologias virais (para descartar outros quadros infecciosos).

Diabetes tipo 1: Análise do quadro clínico; dosagem do nível de glicose no sangue (glicemia); hemoglobina glicada (HbA1c); e teste oral de tolerância à glicose (curva glicêmica).

Tireoidite de Hashimoto: Análise de sintomas; exames de sangue que avaliam a dosagem dos hormônios tireoidianos; e ultrassom da tireoide.

Esclerose múltipla: Exame físico para analisar sintomas (alterações de reflexo, força, sensibilidade); exames de sangue; ressonância magnética; e punção lombar (dependendo do caso).

Doença celíaca: Análise de quadro clínico; endoscopia com biópsia (se necessário); e exames de sangue.

Covid aumenta risco de doenças autoimunes?

Infecções virais (como a gripe) podem ser gatilhos para o problema —e com o coronavírus não foi diferente.

Um estudo recente, publicado no periódico The Lancet, analisou a relação entre a covid-19 e as doenças autoimunes. Os pesquisadores analisaram mais de 800 mil casos de pessoas com covid em comparação ao grupo controle (mais de 2 milhões de pessoas sem covid).

O grupo que tratou covid teve risco aumentado para: artrite reumatoide, espondilite anquilosante, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose sistêmica, vasculite, psoríase, doença inflamatória intestinal, doença celíaca, diabetes tipo 1, entre outras.

A inflamação causada pela covid faz com que o sistema imunológico crie anticorpos para combatê-la. Mas as células podem se confundir com partes saudáveis do próprio corpo.

De acordo com o imunologista Filipe Sarinho, basta imaginar que uma proteína do vírus tenha uma estrutura parecida com uma proteína do nosso corpo.

“A gente vai formar um anticorpo para combater o vírus, mas como se parece com o nosso corpo, pode haver uma reação cruzada. E aí esse anticorpo que deveria atacar e destruir somente o vírus, sem querer, pode se ligar a alguma proteína do nosso corpo e causar danos em nós mesmos”, explica.

“Pacientes com doenças autoimunes precisam ter um bom vínculo com o médico, pois são condições que necessitam de acompanhamento contínuo. Se tudo ocorrer de forma adequada, com controle, é possível chegar na remissão e, às vezes, dependendo da doença, ficar sem medicação.”

Henrique Dalmolin, reumatologista do Hospital Moriah (SP)

Existe cura para um corpo que se ataca?

Não. Mas isso não significa que a pessoa está condenada pelo resto da vida. Com o tempo e, principalmente, avanços na medicina, é possível ter qualidade de vida.
Na maioria das doenças, pode ser necessário o uso de imunossupressores —como os corticoides—, que inibem a ação do sistema imunológico. O medicamento ajuda a equilibrar esse corpo que se enxerga como uma ameaça.

Há outra classe de remédio, a dos imunobiológicos, que pode ser útil no tratamento. Diferentemente dos corticoides, esses fármacos atuam de maneira mais localizada: na exata região em que o corpo está sendo atacado —essa é uma das vantagens.

No entanto, não são todos os pacientes que farão uso da medicação: depende muito da doença e de sua severidade. Mais modernos e caros, eles não causam tantos efeitos colaterais no corpo, como pode acontecer com os imunossupressores.

No caso do diabetes tipo 1 e das doenças da tireoide, não há necessidade de utilizar esses tipos de remédios. Nessa situação, o paciente faz uso de insulina e de hormônios, respectivamente.
“Na maioria das cidades, os pacientes encontram tratamento gratuito. É possível, inclusive, achar bons especialistas. Há alguns medicamentos, como os imunobiológicos, que o SUS cobre e oferece à população”, diz Filipe Sarinho, imunologista e alergologista do Real Hospital Português, no Recife.

Reportagem especial de Luiza Vidal publicada no Portal UOL – Viva Bem em 21 de junho de 2023. O conteúdo na íntegra está disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/doencas-autoimunes/


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